Honoré Daumiera última carruagem do comboio era a mais pequena, e a mais ocupada. numa viagem, um poeta falhado chamou à última carruagem o vagão dos simples. das criadas. dos camponeses. dos analfabetos. dos renegados. dos salafrários. do calor molhado que a todos consome em ardor e transpiração. ali ninguém falava de sonhos nem de ambições. então cantavam. cantavam aquelas canções que sobrevivem ao fim das gerações, e que os engomadinhos tanto desdenham. enquanto isso, uma mãe solteira soprava em vão o rosto do filho. que sem perceber porque lhe ardia o corpo e a respiração, chorava.
de vez em quando o revisor ia à última carruagem, e num berro ordenava aos seus ocupantes que parassem de cantar. era só o que faltava, que incomodassem os passageiros que viajavam nos arejados vagões das pessoas-bem. não fazia mal. eles já estavam habituados. as coisas eram mesmo assim na última carruagem.
de vez em quando o revisor ia à última carruagem, e num berro ordenava aos seus ocupantes que parassem de cantar. era só o que faltava, que incomodassem os passageiros que viajavam nos arejados vagões das pessoas-bem. não fazia mal. eles já estavam habituados. as coisas eram mesmo assim na última carruagem.