Pierre Auguste Renoiro homem que fumava cachimbo lia sempre o mesmo jornal. todos os dias. o mesmo jornal.
as pessoas perguntavam-lhe porque o fazia, no tom discreto e piedoso com que é costume falar-se dos anormais.
mas o homem que fumava cachimbo era de poucas falas, e nunca lhes respondia. parece-me que não gostava muito de pessoas, pelo menos daquelas que viviam o habitualmente.
uma vez o homem que fumava cachimbo disse-me que era pintor.
de casas?, perguntei. nesse tempo eu era jovem, e também um pouco imbecil.
não. de momentos. pinto momentos. momentos marcantes, ou simplesmente banais. como este, em que estou a ler este jornal pela enésima vez. quem sabe se não daria uma tela imortal?
eu tinha muita pena do homem que fumava cachimbo, e fingia acreditar sempre nas suas histórias. e então ficava a ouvi-lo. lembro-me de que ele falava bem. talvez dentro de si houvesse algo de especial, talvez.
um dia o homem que fumava cachimbo deixou de aparecer. nunca mais ninguém ouviu falar dele, nem do jornal de páginas amarelecidas, nem do cachimbo sempre aceso. ainda hoje não percebo porque acreditaria ele que os momentos podem ser pintados.
como aquele em que lia o jornal o homem que fumava cachimbo.