quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Criança nos Braços da Avó

Julia Swartz

por vezes lembro-me de ti, e fico no passado até acordar. acho que já não sei o teu rosto. só consigo recordar os cabelos brancos, as rugas que abriam e fechavam conforme sorrias, e os óculos de zinco sempre embaciados.

lembro-me que não gostava das tuas mãos trémulas e encarquilhadas. lembro-me que não gostava do teu cheiro, embora já soubesse e compreendesse que todas as pessoas de idade cheiram a corredor de hospital. lembro-me que odiava que as tuas amigas, aquelas que pareciam ter mil anos, me enchessem de beijos naquelas tardes de chá. ficava lambuzado até à exasperação, e zangado contigo enquanto conseguisse.

e no entanto.... nunca ninguém me abraçou como tu. ninguém. nunca me senti tão protegido como no teu colo, quando me contavas aquelas histórias que metiam fadas, princesas, e meninos abandonados. só tu me fizeste rir e chorar ao mesmo tempo, e talvez seja por momentos assim que não se pode voltar a ser criança.

a ti ergo a minha taça, estejas onde estiveres.