estas seriam as suas mais antigas recordações.
horas antes a mãe tentara explicar que não basta ser mãe, que era preciso querer ser mãe, e que um dia descobriria uma mãe que mãe dela quisesse ser. o pai... esse era de mais polidas falas. falou-lhe em viajar, correr o mundo, mulheres, fama, glórias e aventura. e que assim não dava, que se a menina ainda não o podia acompanhar que ficasse em terra. alguém tomaria conta da menina, e de certeza que bem melhor do que ele o faria.
e lá se foram os dois. a mãe e o pai, caminhando pela estrada de macadame que conduzia à cidade, até desaparecerem para sempre da sua vista.
ao anoitecer, quando já não podia chorar mais, chegaram os senhores de negro. disseram-lhe que iriam recebê-la, que iria viver para uma casa muito grande e muito bonita. onde não haveria papá nem mamã, mas em contrapartida teria muitos, muitos, muitos irmãozinhos. como não lhes disse o seu nome, chamaram-lhe piagentina, o nome da terra do seu abandono.
boa sorte, piagentina. oxalá que as boas intenções te acompanhem, e não penses mais nisso.
