Honoré Daumierporque a maioria vive de olhos fechados, poucos compreendem que só podemos sentir-nos vivos quando existe um desafio que nos entusiasme para além da vitória. eles perceberam-no desde a infância. em crianças, disputavam os carrinhos de madeira clara que a mãe trazia das feiras. na adolescência apostavam que seriam primeiros a masturbar-se, enquanto fitavam a ninfa que os atiçava de um calendário encardido. aos vinte anos disputavam as mulheres que ao outro interessassem, mesmo que fossem de abominável temperamento e fealdade. na hora do lobo, comparavam as capacidades dos filhos, elevando-os à condição de sumidades intelectuais e/ou vedetas desportivas. mesmo sabendo que não passavam do pouco que eram: banais e colaborantes.
agora aproximava-se o fim da competição. já nada lhes restava que pudessem considerar como seu, a não ser os anos de vida que lhes restavam. então, todas as tardes, jogavam xadrez. tudo pela competição que a tudo dava um sentido. e sempre com a certeza de que, fosse qual fosse o vencedor, os dois ficariam sempre a perder.