quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Rapariga à Janela

Salvador Dali

foi quando decidi correr o mundo. a rapariga da casa ao lado não queria que partisse da aldeia. que era ali o meu lugar. a rapariga da casa ao lado nunca me disse o seu nome, nem as suas afeições. a rapariga da casa ao lado só eu podia ver e sentir. a casa ao lado não seria casa ao lado sem a rapariga da casa ao lado.

quando a rapariga da casa ao lado soube que embarcaria no dia seguinte para portos distantes e cais de aventura, chamou-me da sua janela. da janela da casa ao lado. deu-me uma flor. uma flor de estufa. a rapariga da casa ao lado sabia que odeio flores de estufa.

"- é uma flor de estufa", ela sabia que eu sabia.
"em breve murchará nas tuas mãos... não pode viver muito tempo fora do seu ambiente."
"um pouco como todos nós, entendes? sei que em breve voltarás a casa." a rapariga da casa ao lado franziu os olhos molhados e deixou cair a flor. acho que não tinha percebido que a flor já estava morta.

foi a última vez que vi a rapariga da casa ao lado. lembro-me que enquanto me afastava pela escuridão da noite, virei-me para a sua janela e gritei bem alto que eu não era, de certeza, uma flor de estufa.