Gabriel Metsu
Zorana Filipovic
claro que nunca me esqueci de ti, Zorana, claro que não. nem dos teus aniversários, que todos os anos finjo ignorar, nem quando me falam de ti e finjo que não sei quem és.
"aaaaah sim... a rapariga que tocava violino... era bonita, era..."
infelizmente, lá vai calhando, continuo a ver coisas bonitas por onde passo, e então lembro-me de ti. e então lembro-me dos cabelos negros. e então lembro-me de toda essa classe e distinção por onde nunca me pude aventurar.
e então o céu escurece. começa a chover água agridoce. fico outra vez cheio de frio. o peito prestes a rebentar não sei do quê. mas sei que não é de saudades. e vou para casa, o sítio onde penduro a boina. de olhos presos à calçada. a lembrar-me de ti no Rossio. ninguém desce o Rossio como tu, Zorana. ninguém.
sabes, quando sonho contigo, pelo menos nos sonhos em que apareces vestida, vejo-te de costas e cabelos negros num vestido de musselina. e nunca te viras para mim, claro que nunca te viras para mim.
eu confesso, Zorana, que não sei o que é musselina, mas pareceu-me bem falar de musselina. de certeza que a musselina fica-te muito bem, seja isso o que for.
claro que nunca te viras para mim, Zorana, claro que não. ainda bem.
assim não verás nunca como nunca pude deixar de esperar por ti.
assim não verás nunca como ainda estou sempre cheio de frio.
assim não verás nunca que nunca deixei de ser o fantasma que só tu sabes que existe.
assim não verás nunca que a musselina não me ficaria nada bem. seja isso o que for.
não, a musselina não é mesmo para mim. infelizmente, zorana, infelizmente.
adeus zorana, até à vista. encontramo-nos por aí, quando te voltar a ver de costas, cabelos negros e musselina no Rossio. e nunca te vires para trás, porque eu estarei lá para te dizer como és dolorosamente linda.
(assinatura reconhecida por notário)